sexta-feira, 23 de maio de 2008

Texto do 3º Jogo das 12 Palavras

Esta a minha participação no 3º Jogo das 12 Palavras no Eremitério, entre outras 33 participações. Passem por lá e leiam - estejam à vontade que o Eremit@ fica contente com a visita e a prosa.
O filho


Olhou a criança e sorriu.
Era ousada, confiante, sem vulnerabilidades.Não admitia qualquer obstrução, desconhecia o sentido, melhor, a existência do medo, mas não de forma inconsciente.Inquiria e ponderava, elaborando um plano para a acção, como se escutando a voz de um conselheiro que lhe indicasse o caminho. A melhor forma de agir.

Aquela criança era, para ele, suave orvalho sobre sequiosa terra, bálsamo de seus dias após a morte da mulher e da filha e com um simples balbuciar conseguia afastar toda a tristeza e dor.

Recordou o dia em que se decidiu pela adopção e se apresentou nos respectivos serviços como exponente aguerrido, determinado e seguro do seu direito, enquanto homem só, viúvo, a adoptar uma criança.
Qualquer criança.
Sem imposição de critérios ou exigências.Lembrou o dia em que foi ao sótão buscar a tapeçaria que Isabel fizera para o quarto da filha.
Nela incorporara todos os seres, mitológicos e virtuais, os de contos, filmes e desenhos da própria e da predilecção de Maria Teresa.

Usara materiais vários que ambas recolhiam nos passeios pelos jardins e praias, desde folhas, vidros coloridos, penas…Tudo o que de belo encontravam e as fascinava…No estilo naiff, a tapeçaria era belíssima e cheia de magia.
Há muito saíra da parede da cabeceira de Maria Teresa e fora arrumada no sótão.

Enquanto olha João brincando, afoito no mar, recorda a manhã em que a foi buscar para redecorar o quarto da sua ou seu futuro filho. Lembra-se de na altura haver pensado que seria um óptimo elemento decorativo porque fora tecida com amor.
Estava impregnada de amor e irradiava-o.
Seria um bom acolhimento para a criança que aí vinha.
Saltando entre a rebentação João chamou-o.
- Pai…anda cá paiiii….
Levantou-se sorrindo e foi ao seu encontro.
João, com a sua voz de criança, mas com uma segurança invulgar para a idade, disse:
- Pára! Pára aí pai!
Parou, curioso.
João veio ter com ele. Andou em círculos, ao seu redor, calado e muito atento. Depois agarrou-lhe as mãos, ordenando-lhe que rodasse num determinado sentido e, súbito disse, com voz de comando:
- Está bom pai. Fica quietinho.
Viu-o baixar-se e, com um seixo que trouxera da rebentação, começar a desenhar o contorno da sombra, um pouco alongada pela luz do sol ao encontrar o obstáculo de matéria que o constituía, deixando no areal uma silhueta distendida.
Sorriu.
Perguntou-lhe:
- João, como queres que coloque os braços?

quinta-feira, 15 de maio de 2008

sábado, 3 de maio de 2008

daS globalizaçõeS


Esta já é muito conhecida e apavora alguns estados enquanto anima alguns tubarões do capital.

Esta, creio que foi a primeira, logo pioneira e.... paradigmática,

a partir de uma unidade familiar e da triste realidade que foi/é o desaparecimento - o que quer que a palavra queira dizer - de Madelleine.

(capa do correio da Manhã - Google)

LUZ por e para Madelleine e tantas outras crianças.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Que nome de país? Portugal ou ABSURDO?

Não sei se lerem ou ouviram.
Pois se vos passou desapercebido aqui vos deixo a notícia.
Como é do conhecimento geral e comum (coisas de Estado merecem linguagem La Palaciana) o fisco tem novas regras, segundo as quais as secções de finanças desencaderam uma caça aos faltosos com quadro da "vergonha" para todos verem e saberem da falta de "cidadania" dos faltosos - e eles, Estado, finanças em geral, sabem lá das necessidades que os faltoso têm, da vontade ou incapacidade em liquidar a dívida...!
E isso que lhes importa?
BOM, o certo é que das finanças de Matosinhos (foi o que disseram na SIC) foram a Custóias - ESTABELECIMENTO PENAL DE CUSTÓIAS - cobrar a dívida de um detido penhorando-lhe os bens existentes na cela...
Quaquer coisa como um rádio leitor de CD e um ou dois, sei lá quantos, CD's....
Portugal, nome de país ou... mudamos-lhe o nome pelas absurdas práticas?
Digam-me de vossa justiça. As urnas estão abertas e a votação decorre.

E já agora façam o favor de se servir.... Retirem o que vos aprouver.

terça-feira, 1 de abril de 2008

para ti mãe, no dia de teu nascimento


com orgulho por te haver tido em minha vida,
com gratidão por tudo que me deste e com amor

quinta-feira, 20 de março de 2008

há um lago nos olhos da casa

há um lago nos olhos da casa
fechado
em teu coração

o enfraquecido
pulsar do sangue
não logra abri-lo

na água nem uma vibração

sexta-feira, 7 de março de 2008

NO DIA MUNDIAL DA MULHER - sobre histórias de vida de mulheres

Posted by Picasa

Enchia a boca para dizer como gostava dela. Como a amava.
A todos indiscriminadamente. Mesmo a quem nunca a vira, muito menos a conhecia e nunca poderia reconhecê-la.
Marejavam-se-lhe os olhos e deixava as águas correr mansas como convêm a homem de boa criação.
Dizia da dor que sentia pela ausência. Da ingratidão talvez…,de tudo o que lhe dera e da incompreensão e dureza dela.
Quem o ouvia concordava ao vê-lo tão esfacelado, tão dorido… O sofrimento assim exposto.

O que nunca dissera a ninguém, talvez nem a si mesmo, era de como ela o amara com carinho, de como a remetera para um segundo ou terceiro plano, a colocara num insustentável lugar e estatuto que ela, estóica e dedicada, suportara, na esperança de que ele visse o erro nos seus comportamentos e atitudes, pois lhe ia dando algumas dicas sobre o desconforto que por vezes sentia mais forte e só ultrapassava apelando a toda a sua energia e amor.
O que ele nunca disse a ninguém foi de como as necessidades dela lhe eram de pouca importância porque afinal estando ele presente – aparentemente diria ela – ela tinha o mundo. Claro que nunca poderia dizer isto porque sobre tal comportamento não reflectia.
Seria atávico, genético, adquirido na primeira infância e fossilizado…?
Pouco importava pois o resultado era só um e sempre o mesmo.
Vivia a vida em função de si mesmo e esperava, mais, exigia que ela assim vivesse e todos os gritos dela, uns de socorro, outros de alerta, passavam-lhe ao lado. Fantasmas incorpóreos sem peso e sem sentido, nunca vistos nem ouvidos.

Ela, como vinha, lançava apelos como âncoras, raízes que se espalhavam no ar, gavinhas… Mas fugidia era a natureza dele a tudo o que não fosse o seu universo. Um mundo e uma vida nos moldes por ele definidos.
Etéreo ou imaterial era o seu sentir. Nunca se deixava tocar.
Nunca se deixou tocar. Só os gestos que lhe eram destinados o alcançavam e importavam.